sábado, 5 de dezembro de 2009

Llorar a lágrima viva...

Tzviatko Kinchev



Llorar a lágrima viva. 
Llorar a chorros. 
Llorar la digestión. 
Llorar el sueño. 
Llorar ante las puertas y los puertos. 
Llorar de amabilidad y de amarillo. 
Abrir las canillas, 
las compuertas del llanto. 
Empaparnos el alma, la camiseta. 
Inundar las veredas y los paseos, 
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto. 
Asistir a los cursos de antropología, llorando. 
Festejar los cumpleaños familiares, llorando. 
Atravesar el África, llorando. 
Llorar como un cacuy, como un cocodrilo... 
si es verdad que los cacuíes y los cocodrilos 
no dejan nunca de llorar. 
Llorarlo todo, pero llorarlo bien. 
Llorarlo con la nariz, con las rodillas. 
Llorarlo por el ombligo, por la boca. 
Llorar de amor, de hastío, de alegría. 
Llorar de frac, de flato, de flacura. 
Llorar improvisando, de memoria. 
¡Llorar todo el insomnio y todo el día!


Oliverio Girondo

Vicent Van Gogh - Pictures

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Card ano novo

Devaneio

 

Nua, tu és o sol, manhã, pensamento,
Nua, tu és o corpo em sublime movimento,
Nua, tu és o mar, areia e as conchas,
Nua, me vejo tomado pela força de suas coxas,
Nua, de pele, de corpo e de coração,
Nua, no meu universo a perfeita constelação,
Nua, minha loba, minha noite, minha lua,
Nua, quero me embriagar com carne tua,
Nua, de pêlo, de gosto, de cheiro
Nua, vou escorregar minhas mãos sobre teus cabelos
Nua, no olhar, na boca e no rosto,
Nua, vou me embriagar com teus beijos, teu gosto.


Márcio C. Pacheco



Ela não era o tipo de mulher que se contenta com um olhar

Queria pegar e ter e arder, queimar

E suportar o peso da paixão de um homem

Ainda que breve

Tinha aprendido cedo e por instinto

A amar o transitório, o mais fugaz

Do instante, e sonhava momentos excitantes

Quase sempre escondidos

Às vezes misturava a libido a outras convicções

Via mudar a ideologia conforme a luz

Pequenas artimanhas de quem é do signo da serpente

e usa minuciosa e deliberadamente

A estratégia da aranha.



Bruna Lombardi

O perigo do dragão, Rio de janeiro, Record, 1984, p. 42

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009



O Lobo da Estepe - Hermann Hessé


“Os homens nasceram para andar na terra, não na água. Foram criados pra viver e não pra pensar. Quem faz do pensamento sua principal atividade pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida, estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado”.

“Livros, manuscritos, pensamentos está amarrado e embebido pela miséria do solitário, pela problemática do ser humano, pelo anseio de dar um novo sentido à vida humana que já perdeu seu rumo”

História de um intelectual cinqüentão vivendo em plena desvairada década de 1920 que, após abandonar a regrada vida burguesa, se entrega à dissipação da vida boêmia dos bares e dos salões de dança. O erudito Harry Haller vive o tempo toda a tensão entre a vida sublime de seus grandes poetas e músicos - Goethe e Mozart,  a vida da alta cultura, do espírito, dos Imortais, e a vida das profundezas da superficialidade, do sensual, da carne.Vive atraído por dois pólos magnéticos opostos, um representado pela vida noturna, pelo álcool, pelos cigarros, pelo jazz, pelas meretrizes e pelo despertar ao meio dia; o outro pela vida ascética, diurna, tranqüila, de jardins bem cuidados da família burguesa vizinha que admira logo no primeiro capítulo como alguém que sente nostalgia por um paraíso perdido.

“Já se sabe que o homem é formado por um número incalculável de almas, por uma multidão de egos. Dividir a unidade aparente de um indivíduo nessas numerosas figuras é algo que passa por loucura”

“Sempre exigira das mulheres a quem amava, que tivessem educaçãoe inteligência, sem me dar conta de que nem mesmo a mulher mais espiritual e relativamente educada jamais daria resposta ao logos que havia em mim. Meus problemas nasciam diretamente dos sentidos.”

O Lobo da Estepe, pertence à burguesia, não consegue superá-la, daí seu misto de apreço e desprezo pela vida burguesa. Harry entrega-se à dissipação querendo superar a mediocridade burguesa, quer uma transcendência, mas não tem força bastante para esta libertação, daí a sua atração pela vida burguesa quando sente-se aprofundar demais na vida do libertino.

“A felicidade de que necessitava e por que ansiava era diferente, era uma infelicidade que me permitia sofrer com ânsia e com prazer”

 Porém, para além da dupla personalidade, Haller descobre ter mil almas, que além dos dois pólos pelos quais se sente atraído, uma infinidade de pulsões interiores e exteriores atua sobre o seu ser, engendrando múltiplas personalidades, mal contidas pela frágil unidade de seu ego. Mas Haller admite no delírio final do romance a coordenação das mil almas, mil personalidades em torno de um eixo central que dá unidade à pluralidade de personas.

“As anotações de Harry são um documento da época. Sua enfermidade anímica não é o capricho de um solitário, mas a enfermidade do próprio tempo, a neurose daquela geração a que ele pertencia, neurose que não aterrava os débeis e insignificantes, mas precisamente os fortes, os mais espirituais, os mais fortes”

O Lobo da estepe é um romance que narra a desintegração da personalidade num homem maduro, ou quiçá o fracasso ou a resignação ante a impossibilidade de formação de uma personalidade coesa e sólida na voragem de um tempo de transmutação de valores, de fragmentação e velocidade. Haller vive entre as trevas e a luz, o sensual e o espiritual, o moderno e a tradição, o profano e o sagrado, numa interminável e aguda crise. Não é feliz. A certa altura, no clímax de uma sensual festa de máscaras, imerso na multidão, já desfigurado, sem passado, sem face, sem personalidade, sente seu ego, sua individualidade dissolvida na unio mystica da alegria. Harry Haller experimenta uma espécie de transcendência espiritual às avessas.

“Talvez aqueles poucos fregueses, aos quais conhecera de vista não passassem de verdadeiros filisteus e tivessem em casa altares domésticos erigidos aos tímidos ídolos de resignação, ou talvez ficassem uns pobres diabos sem rumo como eu pacíficos, bebedores, cheios de pensamentos sobre a falência dos ideais.”

“Todas as tentativas de tornarem as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias, de mentiras”

O livro parece deixar uma conclusão pessimista quanto à possibilidade de formação da unidade pessoal. Mas Hesse, em nota de 1961 para uma reedição do romance, diz que não descarta no romance a esperança oculta de uma síntese transcendente, que integre o santo e o libertino, o que parece estar prefigurado na demonstração da unidade oculta das mil almas no capítulo final da obra.

Poetas

(Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana, Mendes Campos)


O poeta não quer duplicar o mundo
não quer fazer dele uma cópia:



Luta com a palavra
como Jacob lutou com o anjo
mas a escada que ele sobe
conduz a outras alturas
a outras planuras



É assim que o poeta
palavra por palavra
como pedra sobre pedra
constrói o edifício do poema



E a sua mão
robótico instrumento comandado
pela algébrica lógica do sentido oculto
produz
deve produzir
o que o mundo não tem
o que o mundo não diz
o que o mundo não é



Ana Hatherly

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma Espécie - Canção de Libertação Animal



E grito, porque cada um é uma parte de mim.
E fico furioso, porque com eles eu estou trancado dentro desta jaula.
Já que eu não consigo ver diferenças entre a multiplicidade de espécies. Eles sentem dor eu sinto dor. Eles só querem viver. Assim como eu. E quando vamos ver que não há diferença no sofrimento?
Uma espécie, somos todos iguais. Somos todos seres sencientes.
Quando eles sangram eu sangro.
Quando eles gritam eu grito.
Quando abusam deles também estão fazendo a mim e a você.
E se você quer paz, então temos que deixar de apoiar isso.


E quando vamos ver que não há diferença no sofrimento?
Uma espécie, somos todos iguais.
Somos todos seres sencientes.


E quanto mais vamos seguir com os abusos?
Torne-se vegano, porque os animais não necessitam de suas desculpas mesquinhas.


Imagine se fosse seu bebê a ser levado.
Imagine se fosse sua vida, todos seus irmãos e irmãs confinados.
Poderia imaginar ser cozido vivo?
Poderia imaginar ser sacrificado somente pela sua pele?
Poderia imaginar ser visto como um produto e ao final acabar sendo absurdamente assasinado?


E quando vamos ver que não há diferença no sofrimento?
Uma espécie, somos todos iguais.
Somos todos seres sencientes.


E quando vamos ver que não há diferença no sofrimento?
Uma espécie, somos todos iguais.
Estamos todos tentando evitar a dor

Aforismo 2 – A Consciência Intelectual

Acabo de refazer a experiência e de me rebelar contra ela, não posso acreditar, ainda que me seja evidente: falta consciência intelectual à grande maioria das pessoas; parece-me, frequentemente, que quando alguém a possuía, nas mais populosas cidades, estava tão só como no deserto. Todos olham para nós como se fôssemos estrangeiros e continuavam a fazer uso da sua balança, dizendo que isto é bom que aquilo é mau; ninguém enrubesce de vergonha quando deixa perceber que os seus pesos não são justos; ninguém se indigna contra vós: talvez riam das vossas dúvidas. Quero dizer: a maior parte das pessoas não acha desprezível acreditar nisto ou naquilo e agir de acordo sem ter pesado o pró e o contra, sem ter consciência profunda das supremas razões de agir, sem mesmo de ter incomodado a inquirir essas razões; os homens mais dotados e as mulheres mais nobres também fazem parte desse grande número. Que me importam bondade, finura e gênio, se o homem que possui essas virtudes tolera no seu coração a mornice da fé, do juízo, se a exigência da certeza não é o seu mais profundo desejo, a sua mais íntima necessidade – O que distingue os espíritos superiores dos outros! Encontrei em pessoas piedosas um ódio pela razão pelo qual lhes fiquei agradecido: este ódio revelava ao menos a sua má consciência intelectual! Mas encontrar-se no meio dessa “rerum concordia discors “(discordante concerto das coisas), desta maravilhosa incerteza e multiciplicidade da vida, e não interrogar, não tremer com o desejo e a ânsia de se interrogar, de nem sequer odiar aquele que o faz, talvez até troçar disso sutilmente, eis o que considero desprezível, e tal percepção é o que procuro em primeiro lugar em cada pessoa: não sei que loucura me persuade sempre de que qualquer ser humano a possui, como ser humano. É minha maneira de ser injusto.

Friedrich Nietzsche
Blue hands - Henrik Uldalen


Chuva nas nuvens,

flores nas arvores,

lagrimas em nós.

Estação de chuva,

estação de flores.

O tempo inteiro para as lagrimas.

Por isso estamos tão extenuados:

todos os tempos foram de chorar.



Cecília Meireles, In: Poesia Completa