quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

No silêncio dos olhos

Albert Lynch 


Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?



José Saramago

O mundo do sexo



"Todo engenho, todo trabalho penoso gasto nas invenções, que são encaradas como maravilhas que operam milagres, deve ser considerado não só como mero desperdício, mas também como um esforço do homem para impedir e evadir o miraculoso. Entulhamos a terra com nossas invenções, nunca sonhando que possivelmente sejam desnecessárias - ou desvantajosas. Criamos espantosos meios de comunicação, mas chegamos a nos comunicar uns com os outros? Movimentamos nossos corpos de um lado para o outro em velocidades incríveis, mas será que chegamos realmente a deixar o lugar de onde partimos? Mentalmente, moralmente, estamos encalhados. O que realizamos ceifando cadeias de montanhas, domando a energia de rios poderosos ou deslocando populações inteiras como peças de xadrez, se nós mesmos continuamos as mesmas criaturas inquietas, infelizes e frustradas que éramos antes? Chamar tal atividade de progresso é extrema ilusão. Podemos obter sucesso em alterar a face da Terra até que ela pareça irreconhecível ao próprio Criador, mas se não formos afetados, qual o sentido disso?

Atos que possuem sentido não exigem nenhuma agitação. Quando as coisas estão se esfacelando, o ato mais intencional talvez seja sentar-se e ficar quieto. o indivíduo que consegue perceber e expressar a verdade que existe dentro de si pode ser considerado aquele que realizou um ato mais potente do que a destruição de um império. Nem sempre é necessário, além do mais, proferir a verdade. Embora o mundo se faça em pedaços e se dissolva, a verdade subsiste.

No princípio era o Verbo. O homem o encenou. Ele é o ato, não o ator."


Henry Miller, "O mundo do sexo"

“Fico contente que os cães não possam ler. Eles certamente seriam menos queridos se pudessem latir sua opinião sobre os traumas psíquicos e o complexo de Édipo”


Freud

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Falar é difícil



a escrita é o gesto dos inadaptados à fala, daqueles que, de alguma maneira amputados, não conseguem expressar-se pelas delicadezas do verbo, pela boa música de uma ideia ou desejo pronunciados. A escrita é a salvação dos desesperados: e é tão imperfeita. Tu não sabes falar, não sabes dizer, e quando não podes escrever dependes das imagens como um ortodoxo precisa dos ícones. O que se passa contigo rapaz? Tens uma nova casa, o teu novo bairro é acolhedor, visitas mais frequentemente os teus amigos, estás agora no umbigo do mundo, o que te falta? Ontem, depois de uma conversa ligeira com alguém, descobriste as tuas imperfeições, mas e daí? Todos as têm. Estás mesmo perdido, não estás? Tão perdido que nem sabes ao certo o que querias escrever aqui.

- Era para falar da tua nova solidão:


Óscar Mourave

Te procuro



te procuro
nas coisas boas
em nenhuma
te encontro inteiro
em cada uma
te inauguro

Alice Ruiz
Ilustração de Roberto Ferri


As recordações são sempre torturantes, quer sejam alegres ou melancólicas. Pelo menos é o que me acontece com as minhas… Entretanto, esse tormento vem sempre acompanhado de uma certa medida de prazer. E quando a melancolia nos assalta e o coração nos parece pesado, quando nos sentimos magoados e tristes, as recordações servem-nos de lenitivo e vivificam-nos, tal como o fresco orvalho que, depois de um dia cálido, refrigera pelas tardes úmidas as pobres flores amolentadas pelo ardor do sol, comunicando-lhes uma nova vida.


Fiodór Dostoiévski, in “Pobre Gente”
Christian Schloe
Já se disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que tal esperança, jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada, de que cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos.

Albert Camus


Pode ou não Pode?



O consumo de produtos derivados de animais, ou testados em animais, viola uma regra moral fundamental, a do respeito à vida dos seres sencientes. Se essa regra não é reconhecida pela lei nem pelos costumes, isso não a torna inválida, nem torna a opinião predominante válida. Ou, como dizem alguns filósofos: 2 mais 2 é igual a 4, mesmo que a maioria não concorde.


É errado matar seres sencientes. Sendo errado, é uma regra moral. Se a maioria viola essa regra, isso não faz dela opcional. É um dever dos seres humanos respeitar a vida, a liberdade e a integridade dos demais animais. É uma imposição ética. Mesmo que a submissão a esta regra seja voluntária, do ponto de vista ético ela ainda é obrigatória. E o que nós lutamos é pelo dia em que ela não seja mais uma regra de adesão voluntária: lutamos pelo dia em que um ser humano não possa matar um animal, mesmo que ele não acredite no imperativo ético que o impede de fazê-lo. Da mesma forma que um ser humano não pode matar outro de sua espécie – e ninguém acha que esta regra é autoritária ou fruto de fanatismo. Por isso, se alguma pessoa me pergunta: “então não pode comer carne, leite, ovos, mel, nem usar couro, lã e seda, nem usar produtos testados em animais?”, eu respondo, resoluto: “É, não pode. E sigo adiante, com a segurança dos meus argumentos.

Bruno Müller

leia a matéria na íntegra, aqui: http://vista-se.com.br/site/pode-ou-nao-pode#more-1945

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Desvendei teu segredo



choveu ontem , os carros passavam rápidos, água espanando as pessoas que esperavam no ponto de ônibus. mais tarde, ao olhar a noite no deserto da rua vi tua face refletida nas poças junto à calçada.
não há mistério no meu rosto ao espreitar o céu, acabado de lavar, negro, as estrelas largadas no aleatório.
não há mistério no meu rosto, não há mistério no teu.

há uma multidão e nem uma pessoa. são faces passageiras, perdidas, até que alguém toque a solidão do outro.
desvendei teu segredo. soube das tuas mãos presas no calabouço do medo. o corpo rendido à própria fraqueza, acuado pelos cães da angústia. o amor a desafiar tua vida segura pela própria fragilidade, literária .

desvendei teu segredo, o outro lado, a outra face, o outro homem. a montanha de contradições, delírio noturno e assombrado. o pranto oculto. o fantasma a perambular, ora hesitante ora agudo pelo labirinto das salas sem alma, das mãos femininas, das casas. as palavras a ocultarem tua verdadeira face.desvendei teu segredo e secaria tuas lágrimas, fosse isso possível. o faria suavemente, sem mãos, sem palavras, apenas um olhar, próximo, continente.

desvendei teu segredo e não podes ver-me porque estás cego e eu ardo nos dias e noites. e porque ardo não podes me ver, estás cego e frio.
ainda ontem tive a justa impressão de que tropeçamos um no outro. tive a impressão de quase poder tocar-te, mas tocar-te só será possível se não estiveres cego e não ensudecermos nesta distância atlântica.
saberias que tenho um corpo e palavras e silêncios e um amor liberto. talvez desvendasses os meus segredos. talvez.

silvia chueire

A poesia




• “O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel’
- Paul Claudel

• “O poeta faz-se vendo através de um longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos”
- Arthur Rimbaud

• “A poesia não voltará a ritmar a ação; ela passará a antecipar-se-lhe”
- Arthur Rimbaud

• “Deus, que nos fizeste mortais, porque é que nos deste a sede de eternidade de que é feito o poeta?”
- Luis Cernuda

• “A poesia não é nem pode ser lógica. A raiz da poesia assenta precisamente no absurdo”
- José Hidalgo

• “Fazer poesia é confessar-se”
- Friedrich Klopstock

• “A poesia numa obra é o que faz aparecer o invisível”
- Nathalie Sarraute

• “Para mim, o importante em poesia é a qualidade da eternidade que um poema poderá deixar em quem o lê sem a ideia de tempo”
- Juan Ramón Jiménez

• “A poesia é um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor”
- Dámaso Alonso