terça-feira, 21 de setembro de 2010

My Eternal Soul



At the heart of the soul, compassion
feeling physical sensations Is it he master of my heart?
Does it control my works of art?
Can my soul become an animal?
Turning into a criminal. Is it the one I answer to?
Does it pay when my time is due?
Can my soul free its’ self from me?
Slip out to be alone and free?
Is it the one who knows it all?
Can it read a crystal ball?
Can my soul be like a wishing well?
Can it be locked up in hell?
Is it the reason why I lose?
Does it have the right to chose?
Can my soul take away my life?
Can it decide if it wants to die?
Does it believe in good and evil?
Is it as sharp as a needle?

Jim Morrison


Eu a vi passar por meus jardins
quando minha alma era luz da luz.
Eu a vi mirar o berço
onde a Luxúria morde as crinas.

Eu a vi rezar na penumbra
no altar dos sacros martírios,
azul e pálida como os lírios,
com a luz de meu peito que a ilumina.

Nunca mais a vereis, pois a minha alma
já entrou no reino do prazer sombrio,
jardim sem lua, sem paixão,sem flores.

Murchou a flor; e acalmou-se
minha ilusão.Já longínquo o vozerio,
o coração penetrou nas dores.

Federico García Lorca

Local


De onde me viria
esta história de o amor
ser de partida?

E esta agonia,
o inquirir de cada olhar
o revés
do esquecimento?

Minha praia é esta
meu convés o litoral
eu sou a minha nau
e o meu descobrimento.

Eu não conheço a dor dos navegantes
nem as areias escaldantes
dos salvados do mar...

Se sou assim desde o primeiro dia
por que fugir de mim
em travessia?

Abel Silva
Albert André 

Eu não alcanço
com as palavras a definição
certa do que é concreto

nesta paisagem desolada
que resta depois de pronunciado
o verbo que atiramos às coisas

e a rosa deixa de ser rosa
assim que a mencionamos
como tal

e o amor então é menos
que o sorriso do gato quando imita
a lua

e toda a nossa tentativa de fazer
parte do mundo não passa de um esboço
inacabado:

um poema que não sabemos onde
começou e nem como vai terminar.


Oscar Mourave

Destino



Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Floresce!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Gustave Flaubert, Madame Bovary


...Às vezes pensava que afinal aqueles eram os mais belos dias da sua vida, a lua de mel, como diziam. Para lhe saborear a doçura teria sido preciso, sem dúvida, viajar-se por países de nomes sonoros, onde as manhãs das noites nupciais são cheias das mais suaves indolências! Em carruagens, sob cortinas de seda azul, sobem-se a passo caminhos íngremes e escarpados, ouvindo o cantarolar do cocheiro repercutindo na montanha com o chocalhar das cabras e o ruído surdo das cascatas. Depois do pôr do sol, respira-se à beira dos golfos o perfume dos limoeiros; e à noite, nos terraços das vilas, sozinhos, e com os dedos entrelaçados, olham para as estrelas, fazendo projetos. E parecia-lhe que certos lugares da terra deviam dar a felicidade, como planta peculiar ao solo que não se dá bem noutra parte. Não poder ela encostar-se ao balcão dos chalés suíços ou encerrar a tristeza num contage escocês, com um marido de casaca de veludo preto com abas grandes, botas, chapéu pontiagudo e com rendas nas mangas!
Desejava talvez fazer a alguém a confidência de todas estas coisas. Mas explicar um inexplicável mal-estar, que muda de aspecto como as nuvens e que se move em turbilhão como o vento? Faltavam-lhe, pois, palavras, ocasião e coragem.
Se, entretanto, Carlos quisesse, se ele suspeitasse de semelhante coisa, se o seu olhar, uma única vez, fôsse ao encontro do seu pensamento, talvez que uma súbita riqueza se lhe destacasse do coração como caem os frutos de uma árvore que se sacode. Mas, à proporção que mais se apertava a intimidade de sua vida, mais aumentava essa espécie de desapego interior que a desligava dele.
A conversa de Carlos era plana como o passeio da rua, e as ideias de toda a gente desfilavam nela o seu feitio vulgar, sem provocar comoção, riso ou devaneio. Carlos nunca tivera curiosidade, dizia ele, enquanto residira em Ruão, de ir ao teatro ver os atores de Paris. Não sabia nadar, nem esgrimar, nem atirar, e não pôde, um dia explicar-lhe certo termo de equitação que ela encontrara num romance.
Um homem não devia, ao contrário, primar em múltiplas atividades, saber iniciar uma mulher nos embates da paixão, nos requintes da vida, enfim, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava, nada sabia, nada desejava. Supunha-a feliz; e ela não lhe podia perdoar aquela tranquilidade tão bem assente, aquela gravidade serena, nem a própria felicidade que ele lhe dava.
Ela, às vezes desenhava; e era para Carlos uma grande distração permanecer de pé, vendo-a curvada sobre o cartão, piscando os olhos a fim de melhor ver o esboço ou fazendo distraidamente bolinhas de miolo de pão. Com relação ao piano, quanto mais velozes corriam os dedos no teclado, mais ele se maravilhava. Ema batia nas teclas com elegância e percorria o teclado de alto a baixo sem interrupção. Assim sacudido por ela, o velho instrumento, cujas cordas já tinham perdido a elasticidade, era ouvido até no fim da aldeia se a janela estivesse aberta, e muitas vezes o ajudante do oficial de justiça, que passava pela estrada, sem chapéu e de chinelos, parava para ouvi-lo, com a folha de papel na mão.
Por outro lado, Ema sabia governar a casa. Mandava aos doentes as contas das visitas, em cartas muito bem escritas e que não tinham aspecto de fatura. Quando, aos domingos, tinham algum vizinho para jantar, achava sempre meio de apresentar um prato bonito; era exímia em dispor, sobre folhas de parreira, pirâmides de rainhas-cláudias, e servia os potes de doce invertidos, sobre um prato; dizia até que havia de comprar, para a sobremesa, tigelas de lavar a boca. De tudo isto resultava consideração para Bovary.
Carlos sentia crescer a estima de si próprio por ter tal esposa. Mostrava com orgulho, na sala, dois pequenos esboços dela, a lápis, que ele mandara por em molduras muito largas e tinha pendurado na parede com grandes cordões verdes. Ao saírem da missa, viam-no à porta com os seus belos chinelos bordados.
Recolhia-se às 10 horas, às vezes, à meia-noite. Queria então cear, e, como a criada já estava deitada, era Ema quem o servia. Ele despia a sobrecasaca para comer mais à vontade. Enumerava sucessivamente todas as pessoas que encontrara, as aldeias onde fôra, e as receitas que dera; e, satisfeito consigo mesmo, comia o resto do guisado, cortava uma fatia de queijo, trincava uma pêra, esvaziava a garrafa e depois ia para a cama, deitava-se de costas e punha-se a ressonar.
[...]
... segundo teorias que ela tinha por boas, quis entregar-se ao amor. Ao luar, no jardim, recitava em rimas apaixonadas tudo que sabia de cor e cantava-lhe suspirando adágios melancólicos; mas, depois, sentia-se tão tranquila como dantes e Carlos já não lhe parecia mais amoroso nem agitado.
Depois de ter assim batido com o fuzil no coração sem lhe arrancar uma faísca, incapaz afinal de compreender o que não sentia, como de acreditar em tudo que não se manifestasse sob formas convencionais, persuadia-se sem dificuldade de que a paixão de Carlos já nada tinha de excessiva. Suas expansões haviam-se tornado regulares; beijava-a em horas certas. Era um hábito como os outros e como que uma sobremesa prevista com antecipação após a monotonia do jantar.
Um guarda-florestal, curado de um defluxo pelo médico, presenteara Ema com uma galgazinha da Itália; ela levava-a sempre consigo a passeio, pois saía às vezes a fim de estar um pouco sozinha e não ter diante dos olhos o eterno jardim com a sua poeira.
Ia até as faias de Banneville, junto do pavilhão abandonado que fica à esquina do muro, do lado dos campos. Na valeta, ente as ervas, há compridas canas de folhas cortantes.
Ema começava por olhar em torno, verificando se havia alguma mudança desde que fora ali a última vez. Achava no mesmo lugar as digitais, as boninas, as moitas de urtiga em volta dos grandes calhaus e as manchas de musgo ao longo das três janelas, cujas portas, sempre fechadas, caíam de podre sobre barras de ferro enferrujadas. O seu pensamento, primeiro sem ponto fixo, vagabundeava ao acaso, como a sua galgazinha, que dava corridas pelo campo, ladrava para as borboletas amarelas, caçava as aranhas, ou mordia as papoulas à beira dos montes de trigo. Depois suas ideias se fixavam, pouco a pouco, e, sentada na relva, castigava-a com a ponteira da sombrinha, repetindo para consigo: - Mas, meu Deus! Para que me casei? - E perguntava para si mesma se não haveria um meio, por quaisquer combinações do acaso, de encontrar outro homem; e diligenciava em imaginar quais teriam sido os acontecimentos não sobrevindos, a vida diferente, esse marido que ela não conhecia. Com efeito, nem todos se assemelhavam àquele. Podia ter sido belo, inteligente, distinto, atraente, tal como eram, sem dúvida, os que se tinham casado com as suas companheiras de convento. Que fariam elas agora? Na cidade, com o bulício das ruas, o rumor dos teatros e a iluminação dos bailes, levavam a existência que dilata o coração e desabrocha os sentidos. Ela, porém, tinha a vida fria de um celeiro aberto para o norte; e o tédio, aranha silenciosa, ia tecendo a sua teia na sombra de todos os cantos do seu coração. Recordava-se do dia da distribuição dos pêmios, quando subia a um estrado para receber o seu laurel. Com os cabelos em duas tranças, o vestido branco, e os sapatos abertos no peito do pé, tinha um aspecto gentil, e os cavalheiros, quando ela voltava para o seu lugar, inclinavam-se-lhe em reverências; o pátio estava cheio de carruagens, todos lhe atiravam adeus pelas portinholas, e o maestro, que ia passando, acenava-lhe cortesias com a caixa do violino. Tudo aquilo ia já longe, oh! tão longe!...
[...]
Surgiam de vez em quando rajadas de vento, brisas do mar que, rolando num ímpeto sobre o planalto da região de Caux, levava até os campos distantes uma espécie de salgado frescor. Os juncos sibilavam rente ao chão, e as folhas das faias rumorejavam num rápido frêmito, ao passo que os cimos, ondulando sempre, continuavam o seu grande murmúrio. Ema aconchegava o xale aos ombros e levantava-se.
Na avenida, um reflexo esverdeado da folhagem alumiava o gramado, que estalava brandamente sob as suas pisadas. O sol chegara ao ocaso; o céu enrubescido surgia por entre os ramos das árvores, cujos troncos uniformes plantados em linha reta pareciam uma colunata cinzenta destacando-se do fundo de ouro; vinha-lhe um medo súbito, chamava por Djali e voltava apressadamente a Tostes pela estrada principal. Ali chegava, atirava-se a uma poltrona e emudecia para o resto da noite.

Gustave Flaubert, Madame Bovary

I am the other face of you

Namorando na piscina


 Irina Vitalievna Karkabi.

"Tu és o meu dia de festa.
Quando em sonhos me junto a ti, tenho sempre flores nos cabelos."

Desejaria colocar-te flores nos cabelos. Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente
que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las? — Mas creio
agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda — ou uma coroa...
Nunca te vi de outro modo.

Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar.
Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti.
Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti.
Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente.
Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiar.
Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer.
Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite,
ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.


Rainer Maria Rilke

domingo, 19 de setembro de 2010

Ivan Turguêniev, Pais e Filhos



- Que quer que lhe toque?
- Qualquer coisa - respondeu-lhe desinteressadamente Arcádio.
- Que música aprecia mais? Repetiu Cátia sem mudar de posição.
- A música clássica - afirmou com indiferença Arcádio.
- Gosta de Mozart?
- Aprecio Mozart.
Cátia executou a sonata-Fantasia, de Mozart. Tocava muito bem, embora um pouco secamente. Sem afastar os olhos das notas musicais e cerrando fortemente os lábios, ela permanecia firme e ereta. Somente ao terminar a sonata, o seu semblante se iluminou extraordinariamente. Uma pequena madeixa dos seus cabelos em desalinho se lhe espalhara pela fronte.
A última parte da sonata impressionou Arcádio. É um trecho em que, na alegria esfusiante e sincera da canção, surgem repentinamente notas de uma tristeza profunda e quase trágica... Seus pensamentos, inspirados pelas harmonias de Mozart, não se dirigiam a Cátia. Fitando-a, pensava apenas: "Toca bem esta senhorita, e não deixa de ser simpática."

Ivan Turguêniev


Dos que desprezam o corpo


Aos que desprezam o corpo quero dizer a minha opinião. O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem-se do seu próprio corpo, e por conseguinte, ficarem mudos.

“Eu sou corpo e alma” — assim fala a criança. — E porque sei não há de falar como as crianças?

Mas o que está desperto e atento diz: — “Tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”.

O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.

Instrumento do teu corpo é também a tua razão pequena, a que chamas espírito: um instrumentozinho e um pequeno brinquedo da tua razão grande.

Tu dizes “Eu” e orgulhas-te dessa palavra. Porém, maior — coisa que tu não queres crer — é o teu corpo e a tua razão grande. Ele não diz Eu, mas: procede como Eu.

O que os sentidos apreciam, o que o espírito conhece, nunca em si tem seu fim; mas os sentidos e o espirito quereriam convencer-te de que são fim de tudo; tão soberbos são.

Os sentidos e o espírito são instrumentos e joguetes; por detrás deles se encontra o nosso próprio ser. Ele esquadrinha com os olhos dos sentidos e escuta com os olhos do espirito.

Sempre escuta e esquadrinha o próprio ser: combina, submete, conquista e destrói.

Reina, e é também soberano do Eu.

Por detrás dos teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido, chama-se “eu sou”. Habita no teu corpo; é o teu corpo.

Há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria. E quem sabe para que necessitará o teu corpo precisamente da tua melhor sabedoria?

O próprio ser se ri do teu Eu e dos seus saltos arrogantes. Que significam para mim esses saltos e voos do pensamento? — diz. — Um rodeio para o meu fim. Eu sou o guia do Eu e o inspirador de suas ideias.

O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta dores!” E sofre e medita em não sofrer mais; e para isso deve pensar.

O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta alegrias!” regozija-se então e pensa em continuar a regozijar-se freqüentemente; e para isso deve pensar.

Quero dizer uma coisa aos que desprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem a sua estima. Quem criou a estima e o menosprezo e o valor e a vontade?

O próprio ser criador criou a sua estima e o seu menosprezo, criou a sua alegria e a sua dor. O corpo criador criou a si mesmo o espírito como emanação da sua vontade.

Desprezadores do corpo: até na vossa loucura e no vosso desdém sereis o vosso próprio ser. Eu vos digo: o vosso próprio ser quer morrer e se afasta da vida.

Não pode fazer o que mais desejaria: criar superando-se a si mesmo. É isto o que ele mais deseja; é esta a sua paixão toda.

É, porém, tarde demais para isso: de maneira que até o vosso próprio ser quer desaparecer, desprezadores do corpo.

O vosso próprio ser quer desaparecer: por isso desprezais o corpo! Porque não podeis criar já, superando-vos a vós mesmos.

Por isso vos revoltais contra a vida e a terra. No olhar oblíquo do vosso menosprezo transparece uma inveja inconsciente.

Eu não sigo o vosso caminho, desprezadores do corpo! Vós, para mim não sois pontes que se encaminhem para o Super-homem!”

Assim falava Zaratustra.


Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra