segunda-feira, 4 de outubro de 2010


Renso Castaneda


Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca anda mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta-te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo,

Pelo teu corpo, que enlouqueceu.



Cecília Meireles

Elis Regina por Caio Fernando Abreu


Para sempre a estrela Elis...
1962, palco do Cine Castelo, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Final do programa de auditório Maurício Sobrinho, da Rádio Gaúcha. As luzes se acendem sobre a grande atração daquela manhã: a estrelinha Elis Regina. Baixinha, meio desajeitada, ela vacila num repertório de versões um pouco na linha de Celi Campelo, com algumas tímidas incursões pela música brasileira. Mas a voz-clara, forte, afinadíssima empolga a platéia. Todos comentam:'Essa menina precisa sair daqui'.
E ela saiu. Meio no braço, como era seu jeito. Saiu para gravar um primeiro disco, VIVA A BROTOLÂNDIA, ainda com resquícios do modelo 'jovem' americanizado. Saiu para passar trabalho no Beco das Garrafas, para agitar os braços ao som de Arrastão, nos festivais da vida, para comandar O Fino Da Bossa, para brigar com todo mundo, ficar mal-falada e bem-amada, para casar, descasar, ter filhos, abrir a boca e falar sem medo, assumir seus falsos brilhantes e aperfeiçoar ainda mais aquela voz-clara, forte, afinadíssima. Como se fosse um instrumento musical, não apenas uma garganta humana deitando e rolando debochada em qua-qua-ra-qua-quás ou gemendo baixinho, atrás da porta. No riso na dor, furacão Elis levantou vôo daquele cineminha de bairro e foi sobrevoar o país com os braços girando sem parar. "Elis-cóptero", como a chamava Rita Lee.
E vinte anos depois daquela manhã de domingo, com as ruas de São Paulo apinhadas do povo que acompanhou seu enterro cantando os versos de O BêBado e a Equilibrista, nesta outra manhã recente em que Elis partia - alguns no meio daquela multidão espantada e comovida comentavam, como naquela manhã antiga, que essa menina - ah, essa mulher - precisava sair daqui. Deste planeta que , tão freqüentemente, parece não comportar a sensibilidade. Mas a multidão inteira que cantava e chorava, nesta outra manhã, sabia inteira que Elis Regina, tinha virado para sempre uma estrela, como ela queria. Não uma estrela qualquer, mas a mais luminosa de toda a música popular brasileira. E nas manhãs, nas tardes e nas noites dos muitos anos seguintes, quando sua voz brotasse do regente dos rádios ou dos velhos discos, esses todos saberiam que Elis vive. Para sempre.

Caio Fernando Abreu

sábado, 2 de outubro de 2010

Pernoitas em mim

Renso Castaneda

pernoitas em mim

e se por acaso te toco a memória... amas

ou finges morrer


pressinto o aroma luminoso dos fogos

escuto o rumor da terra molhada

a fala queimada das estrelas


é noite ainda

o corpo ausente instala-se vagarosamente

envelheço com a nómada solidão das aves


já não possuo a brancura oculta das palavras

e nenhum lume irrompe para beberes


Al Berto
Roberto Liang

Tu ouvirás esta linguagem,

Simples,

Serena,

Difícil.

Terás um encanto triste.

Como os que vão morrer,

Sabendo o dia . . .

Mas intimamente

Quererás esta morte,

Sentindo-a maior que a vida.



Cecília Meireles

O que foi que aconteceu comigo? Como foi que me salvei do asco? O que foi que rejuvenesceu meu olho? Como foi que alcancei as alturas nas quais não há mais gentalha sentada junto à fonte?

Foi o próprio asco que me deu asas e forças capazes de pressentir as fontes? De verdade, eu tive de voar ao lugar mais alto para poder reencontrar a nascente do prazer!...

Ah, e eu a encontrei, meus irmãos! Aqui, no lugar mais alto, a nascente do prazer jorra sobre mim! E há uma vida na qual não há gentalha nenhuma bebendo junto!

Quase jorras demasiado violenta sobre mim, oh, fonte do prazer! E muitas vezes esvazias a caneca ao quereres enchê-la.

E mesmo assim tenho de aprender a me aproximar de ti de um modo mais humilde: meu coração ainda corre ao seu encontro com demasiada violência:

- Meu coração, sobre o qual meu verão queima, esse verão curto, quente, taciturno e supra-aventurado: como o meu coração canicular clama por teu frescor!

Passada é a tristeza vacilante da minha primavera! Foram-se os flocos de neve da minha maldade em junho! Verão eu me tornei, verão à tarde...

- Um verão no alto com fontes frescas e sossego venturoso: oh, vinde, meus amigos, a fim de que o sossego se torne ainda mais venturoso!

Pois essa é a nossa altura e a nossa pátria: nós moramos num lugar alto e escarpado por demais para as pessoas impuras e sua sede.

Lançai apenas vossos olhos puros à nascente do meu prazer, amigos! Por que ela haveria de se turvar? Rir ao vosso encontro com sua pureza, é o que ela há de fazer.

Sobre a árvore Futuro nós faremos nosso ninho; águias haverão de trazer alimento para nós, solitários, em seus bicos!

De verdade, nenhum alimento do qual poderão comer os impuros! Eles pensariam estar devorando fogo e queimariam suas bocas.

De verdade, não mantemos aqui nenhuma morada disponível a impuros! Seus corpos e seus espíritos chamariam nossa ventura de cavernas de gelo!

E que ventos fortes nós queremos vivenciar sobre eles; vizinhos das águias, vizinhos da neve, vizinhos do sol: vivam, portanto, os ventos fortes.

E como um vento quero, ainda uma vez, soprar entre eles, e com o meu espírito, roubar o fôlego ao espírito deles: é assim que o quer meu futuro.

De verdade, Zaratustra é um vento forte para todas as planícies; e um conselho desses ele dá a seus inimigos e a tudo que cospe e escarra: guardai-vos de escarrar contra o vento!...

Friedrich Nietzche, Ecce homo 
(citação do Zaratustra, Parte II, "Da gentalha")

Cachorro pensa ... (Claro que sim!)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010



Ouçam, a verdadeira poesia não diz nada,
apenas destaca as
possibilidades.
Abre todas as portas.
As pessoas podem atravessar
aquela que se lhes ajusta. ...
e é por isso que sinto pela poesia este
apelo tão forte – porque é eterna.
Enquanto houver pessoas, elas
podem lembrar-se de palavras 
ou combinações de palavras.
Mas nada
pode sobreviver ao holocausto
a não ser a poesia e as canções. [...]. 
Se a minha poesia pretende atingir alguma coisa,
é libertar as pessoas dos
limites em que se encontram e que sentem.

Jim Morrison

Tu

Scott BURDICK 

Quando alguém me pergunta, por ventura,
Quem me faz de outros tempos diferente,
Pensas tu que teu nome se murmura,
Que o exponho à ânsia voraz de toda gente?

Não; digo apenas o seguinte: é pura,
Casta, simples e meiga: é uma dolente
Cauta rola de tímida candura,
Flor que menos se vê do que se sente.

Mimo de graça e de singeleza;
Clara estrela arrancada a um céu profundo:
Doce apoteose da Delicadeza...

Nesse ponto, de súbito, me calo;
E, sem dizer teu nome, todo mundo
Fica logo sabendo de quem falo!


Humberto de Campos

Surrealism and Rene Magritte

Christina Papagianni


Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.
Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?
Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo…

Nuno Júdice

Primaveras



I

 A primavera é a estação dos risos.
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa:- Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!

II

Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas:- o jasmim fenece,
Mas bafejado s’erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio.

Na primavera - na manhã da vida-
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
A voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida- a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa,
Canta, palpita, s’ stasia e goza.


Casimiro de Abreu