sábado, 6 de novembro de 2010

Deixa rolar...



Li uma entrevista com o escritor e jornalista português Vasco Valente, onde ele afirma que passamos a vida tentando conter a tendência para a desordem. Se ficássemos passivos diante da vida, sem mexer um dedo para nada, um belo dia acordaríamos falidos, com a energia elétrica cortada e um monte de gente magoada a nossa volta. Conclui ele: "O que cada um de nós tenta fazer, cada um à sua maneira, é tentar conter o descalabro".
A visão dele é meio apocalíptica - desordem, descalabro! -,  mas, relativizando o exagero, é bem assim mesmo: passamos a vida tentando organizar o caos. Trabalhamos para ter dinheiro, respeitamos as leis, usamos o telefone para manter laços com a  família e  procuramos amar uma única pessoa para sossegar as aflições do coração, sempre tão inquieto. E mesmo fazendo tudo certo, e mesmo correndo contra o relógio e contribuindo para o bem-estar geral, às vezes dá tudo errado. É quando surge alguém não sei de onde, percebe o nosso stress e dá aquele conselho-curinga que serve para todas as ocasiões: deixa rolar.
Sempre que eu deixei rolar, não aconteceu nada.
Nada de positivo ou negativo. Nada. De vez em quando eu até deixo rolar, mas só para obter um breve momento de descanso em que parece que saí de férias da vida.
É uma auto-hipnose: estou dormindo, não estou aqui, não estou vendo coisa alguma. Quando a desordem e o descalabro voltam a ameaçar, eu conto um, dois, três, estalo os dedos e a engrenagem volta a funcionar de novo.
Deixa rolar é um conselho que não consigo seguir por mais de uma tarde. Tenho esta mania estúpida de querer participar de tudo o que me acontece. Se eu me dei bem, a responsabilidade é minha, e se me dei mal, é minha também. Não entrego nada a Deus. Não uso nem serviço de motoboy. Eu mesma respondo aos e-mails, atendo os telefonemas, eu mesma cobro, eu mesma pago. Delego pouco, e apenas pra gente em quem confio às cegas. Nunca pra este tal de destino, que não conheço.
Só entro em estado de passividade quando não depende mais de mim. E só deixo rolar aquilo que não me interessa mais. O problema é que tudo me interessa.


Martha Medeiros

Sumidouro

Juan Fortuny 

 Talhe de audácia
e da covardia,
meu rei e vassalo,
engolir de pássaros
golpe de asa,
fartura de água
na árvore da vida,
na terra me tens
com os pés bem plantados.
Aqui nado, aqui vôo,
telúrica e alada.

Olga Savary

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Vem aos meus sonhos



Vem aos meus sonhos
faz em mim a tua casa

Planta, em frente, a cerejeira dos
pássaros brancos,
deixa que eles pousem nos ramos e cantem
eternamente,
deixa que nas suas asas de luz eu leia o meu
nome,
antes de os relâmpagos acenderem os prados.

Vem aos meus sonhos,
vê os labirintos por onde me perco,
vê os meus países de mar,
vê, em cada barco que parte do meu coração,
as viagens que não fiz,
os amores que não tive,
a lua cruel da minha solidão.

Vem aos meus sonhos,
traz um fio de água para as dálias do meu
quarto vazio,
não queiras que as suas pétalas sequem muito
depressa,
caindo pelos delicados muros de cristal,
apagando a cor que dava vida aos aposentos do
solitário.

Deixa que ele evoque a secreta doçura das
colméias,
e vem,
vem aos meus sonhos,
ilumina o meu domingo de cinzas, o meu
domingo de ramos, o meu calvário.

Diz que estás aqui,
nesta página que escrevo para nunca te esquecer.


José Agostinho Baptista
Konstantin Razumov 

Há quinze minutos te espero
e o mundo cumpre sua trajetória

o planeta gira
enquanto uma mulher
aguarda ansiosa

a criança corre
atrás da bola

e o filósofo
termina o ensaio.

Há quinze minutos te espero
e nos olhos da moça
aponta uma lágrima

o menino
desiste da bola por causa
da borboleta

e o filósofo
zangado
rasga o seu texto.

Há quinze minutos te espero
e o mundo já é outro.


Oscar Mourave

Outono



Olhei para o céu e para o chão, e de novo para o céu,
Era outono. Havia folhas no chão e um céu limpo, quando me disseste naquela manhã repentina, depois de estares na minha casa há muitos dias e na minha cama por um número igual de dias:

- Não é possível ficar, por tua causa não consigo pintar.

Olhei para a folhas secas a teimar com elas, como se me tivessem dito um absurdo direto da sua secura.
Sou uma mulher, e mulheres não devem derramar lágrimas em vão, principalmente no ambiente em que vivemos. E teimei forte. Calada. Não tinha palavras.

-Por que não voltas? Por que não vais? Por que não ficas? Nasciam da minha garganta atropelando-se, contra a minha vontade. Contive-os.

Suponho que uma boa solução era ter dois amantes. um para o verão, nadaríamos juntos, outro para o inverno quando fizesse muito frio, que me aquecesse. Ou talvez quatro, um para cada estação. Porque neste caso, é certo que não me dirias nada e eu não teimaria com as folhas.
Preciso encontrar uma solução razoável para este teu tipo de statement.
uma indiferença digna, de ascendência real, sem angústias. Mais ou menos assim:

- Olha, hoje mudo de amante e pintarás à vontade.

Mas calei.

Engraçado pensei, olhando o céu, outro homem na primavera, escreve seus livros sem problemas e além disso toca um esplêndido violino enquanto me dispo.
Mas era outono. O céu estava muito azul. Era outono e descuidei-me. O outono da cidade nítida, dos pássaros, não te pertencia. Era só meu.
E repetiste:

- Desculpa-me mas é verdade, por tua causa não consigo produzir nada.

As mentiras têm formas engraçadas, fazem-me lembrar aqueles brinquedos de criança. Tubos com espelhos no fundo e cacos de vidro coloridos que conforme giramos mudam as imagens espelhadas e nos encantam. Não pintas por razões que nada têm a ver comigo, quis dizer. Mas nada disse. Não pintas mesmo que eu cuide de tudo para que estejas bem. Não pintas agora porque não consegues te ultrapassar a ti mesmo, Não tens outro sentimento a não ser teu amor por ti . E ele te impede de amar os outros e de pintar. Não amas e te vais. É esta a tua história. É assim que são as coisas, mas não queres saber. E eu me calo.

O da primavera quando é inverno me aconchega em mantas de lã, sob as quais dormimos nus e fazemos amor. Canta-me canções e eu lhe digo poemas. Como fui me descuidar assim? Trocar estações, enganar-me deste modo?

E finalmente eu disse:

- Já entendi. Tu não pintas e a causa disto sou eu, mesmo que poucas vezes façamos amor, ou conversemos, porque precisas pensar nos teus quadros. Mesmo que tenhas todas as horas vagas sem ser incomodado que precisarias. Acho que tens razão, era mesmo hora de ires.

Tive uma enorme saudade da primavera, e depois das mantas de lã – que chegarão a seu tempo - dos violinos e dos olhos cravados em mim. Das canções e da língua que me conhece tanto.
E uma noção absurdamente clara da estupidez de não ter compreendido antes o que te impedia de pintar.

E abri a porta.
- Adeus.


Silvia Chueire

Toque-me

 




Se sou bebê...
Por favor, me toque.
Preciso de seu afago de uma maneira que talvez você nunca saiba.
Não se limite a me banhar, trocar minhas fraldas e me alimentar,
mas me embale aconchegando, beije o meu rosto e acaricie o meu corpinho.
Seu carinho gentil, confortador, transmite segurança e amor...



Se sou criança...
Por favor, me toque.
Ainda que eu resista e até rejeite, insista,
descubra um jeito de entender a minha necessidade.
Seu abraço de boa noite ajuda a adoçar meus sonhos.
Seu carinho de dia, me diz o que você sente de verdade...



Se sou adolescente...
Por favor, me toque.
Não pense que eu, por estar quase crescido(a),
já não preciso mais saber que você ainda se importa.
Necessito de seus abraços carinhosos, preciso de uma voz terna.
Quando a vida fica difícil, a criança em mim volta a precisar...



Se sou amigo(a)...
Por favor, me toque.
Nada como um abraço afetuoso para eu saber que você se importa.
Um gesto de carinho quando estou deprimido(a),
me garante que sou amado(a), e reafirma que não estou só.
Seu gesto de conforto, talvez seja o único que eu consiga...



Se sou seu/sua parceiro(a)...
Por favor, me toque.
Talvez você pense que a sua paixão basta,
mas só seus braços detêm meus temores.
Preciso de seu toque confortador, para lembrar que sou amado(a)...



Se sou seu/sua filho(a) adulto(a)
Por favor, me toque.
Embora possa até ter minha família para abraçar,
ainda preciso dos braços de mamãe e papai quando me machuco.
Como pai, como mãe, a visão é diferente, eu os estimo demais...



Se sou seu pai idoso/sua mãe idosa
Por favor, me toque.
do jeito que me tocaram quando eu era bem pequeno(a).
Segure minha mão, sente-se perto de mim,
dê-me força e aqueça meu corpo cansado com sua proximidade.
Minha pele, ainda que muito enrugada, adora ser afagada...


Phyllis K. Davis

quarta-feira, 3 de novembro de 2010


Entrega os teus lábios ao poema. Eu nunca serei único
pastor do teu silêncio; verás tresmalhados os meus versos
nas páginas de um dicionário, dispersos por noturnas
paisagens deserdadas. Falo-te da eternidade, mas sei apenas
que habitamos plataformas movíveis em clivagens ontológicas.

Somos na verdade, realidades imersas numa insônia prolongada
em que colecionamos coisas obsoletas como cartas de amor.

José Rui Teixeira
 Maria Kreyn.


“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara.”

Oscar Wilde  "De Profundis"


Vida Louca Vida


Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa

Se ninguém olha quando você passa você logo acha 'Eu tô carente'
'Eu sou manchete popular'
Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

Se ninguém olha quando você passa você logo acha que a vida voltou ao normal
Aquela vida sem sentido, volta sem perigo
É a mesma vida sempre igual
Se niguém olha quando você passa você logo diz 'Palhaço'
Você acha que não tá legal
Corre todos os perigos, perde os sentidos
Você passa mal.

Cazuza
Composição: Lobão / Bernardo Vilhena

Mel & Girassóis (6)

6


No final dos quinze dias, estavam inteiramente dourados. Nadaram: ela falou, entre braçadas, que estava com saudade da Avenida Paulista, pique, buzina, relógio digital. Comeram camarão: ele falou que estava com saudade do Rodeio, picanha fatiada, salada de agrião, dry-martini. Correram juntos pela praia sem falar nada. Mas tudo em qualquer movimento dizia que pena, baby, o verão acabou, postal colorido, click: já era. Fumaram cigarros meio secos sobre a areia, olhando o horizonte, falando forçados do Livro Que Ela Ia Escrever e do Barco Onde Ele Ia Morar, porque afinal não eram animais, respeitavam o in-te-lec-to um do outro. Mais de trinta anos, quase dez de análise, nenhum laço, alguma segurança, pura liberdade.

Todo aquele simulacro de Havaí em volta: maduros, prontos. À espera.
Ele ofereceu outro Marlboro, ela aceitou. Ela passou Copertone nas costas dele, ele deixou. Ela falou que bom encontrar você no meio de gente tão medíocre, ele sorriu envaidecido. Ele disse nunca pensei encontrar uma mulher como você num lugar como este (mas não é nenhum puteiro, ela desconfiou), ela sorriu lisonjeada. Ele esticou a perna, o pé dele ficou bem ao lado do pé dela. O pé dela era branco, arqueado pelos muitos anos de dança. O pé dele era moreno, joanete saliente, unhas machucadas, pé de executivo. Como por acaso, o pé dele debruçou sobre os pés dela. Ela deixou ― último dia, não havia mais tempo. Manhã seguinte, acabou: the end ― sem happy? Ela sentiu-se um pouco tonta naquele sol todo, ele perguntou se queria uma água. Ela suspeitou que ele a achava uma coroa meio chata porque afinal, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais. Ele suspeitou que ela o achava um cara inteiramente careta porque, nesses dias todos, nem tinha tentado qualquer coisa mais.
Eles se olharam com tanta suspeita e compreensão, mais de meio-dia na praia escaldante. Os olhos dele lacrimejavam de tanta luz. Ela emprestou a ele os raibans gatinho, depois riu enquanto ele colocava e fazia uma pose meio de bicha. Será, ela suspeitou. E olhou para as garotas que jogavam vôlei de uma maneira tão decidida que será, ele suspeitou. Tempos modernos, vai saber. O sol continuava a descer, tomaram três latinhas de cerveja cada um, lembraram da letra inteira de ta-fazendo-um-ano-e-meio-amor-que-o-nosso-lar-desmoronou, ela pensou com desgosto no Fiat verde avançando pelo Minhocão, oito da manhã, ele pensou com desgosto nos três telefones à sua mesa, e os dois pensaram com tanto desgosto nessas coisas todas que tomaram mais uma cerveja, o sol continuava descendo. Não tinha mais ninguém na praia quando viram o sol, bola vermelha, mergulhar no mar em direção ao Japão. Enquanto amanhece lá, anoitece aqui, ele disse. Combinaram vagamente um sushi na Liberdade.

Mas era o último dia, puro verão, e não estavam nem um pouco a fim um do outro, que pena.


Caio Fernando Abreu

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um livro de horas

Hora do Ofertório


Isto é tudo que tenho para oferecer.
Isto, e meu coração também.
Isto, meu coração, o campo, e além.
Toda a campina selvagem.
Trate de contar - se eu esquecer.
A soma alguém deve saber -
Isto, e meu coração, e as abelhas todas
Que vivem na folhagem.


Hora Pequenina


Ninguém conheceria esta rosa pequenina,
Talvez uma peregrina,
Não fosse eu apanhá-la no caminho
Para te oferecer.
Só uma abelha terá saudade.
Só uma borboleta, bailarina,
A procurar um colo pela tarde.
Só um pássaro atento,
Só um suspiro do vento.
Ah, rosa pequenina, tão fácil sina,
Alguém como você morrer!


Hora do Enigma


Algumas coisas que voam:
Pássaro, abelha, hora.
Não canto nenhuma agora.
Algumas coisas que ficam:
Dor, montanha, eternidade.
Não tenho necessidade.
Mas outras que ficam, voam.
Os céus eu posso explicar?
Imóvel - o enigma no ar!


Hora Sem Luz


Existe mesmo o amanhã?
Há alguma coisa como o dia?
Se eu fosse alta como a montanha
Mais além a enxergaria?
Terá pé feito açucenas?
Como um pássaro, terá penas?
Vem de um famoso lugar
De que eu nunca ouvi falar?
Marinheiro!
Estudante!
Grande sábio de algum clã!
Alguém conte à pequena viajante
Onde fica o lugar chamado amanhã.


Hora da Tristeza Sem Razão


A abelha - de mim - não tem medo,
A borboleta eu conheço.
A gente toda da mata
Se alegra quando apareço.
Os rios riem mais alto assim que eu chego.
E brinca a brisa mais louca então.
Ai meus olhos, por que tua névoa prata?
Por que, ô dia de verão?


Hora de Suportar


Nossa porção de noite suportar,
Nossa porção de amanhecer também.
Nosso vazio, com êxtase ocupar.
Ou ao nosso vazio, o desdém.
Uma estrela aqui, outra ali.
Alguma se extravia.
Aqui névoa, névoa além,
Depois, dia!


Hora da Dor


Água, é a sede que ensina.
Terra, a travessia do mar.
Êxtase, a agonia.
Paz, o guerrear.
Amor, o retrato eterno,
Pássaros, o inverno.


Hora do Amor


Vem devagar, Jardim!
A boca desacostumada,
Ruborizada, bebe jasmim
Feito abelha embriagada.
Que a flor alcança tarde,
Ao redor do quarto arde,
Néctar, néctar - roga.
Entra, e em bálsamo se afoga.


Hora da Paixão


Diminutos rios - dóceis a algum mar azul.
Meu Cáspio - tu.


Hora do Cuidado


Tinha nos dedos um anel
E fui dormir.
O dia quente, o vento ao léu.
Pensei: - Não vai sumir.
Acordo, e meus dedos honestos desdenho.
A jóia, perdi de vista.
Agora, tudo que tenho
É uma saudade ametista.


Hora desta Carta


Todas as cartas que eu escrever
Não serão bonitas assim:
Sílabas de veludo,
Frases de cetim,
Abismos de rubi, submersos.
Impossíveis, ô lábio, para ti.
Faz de conta ser um colibri
Que sorveu a mim.

Hora Em que me Chamarem de Louca


Muita loucura é sabedoria divina
Para um olho inteligente.
Muita sabedoria, pura loucura.
Mas, como sempre,
A maioria domina:
Se você concorda, é boa gente.
Se nega, um perigoso sem cura.
Melhor prender com corrente.


Hora de Saber de Deus


O pensamento é maior que o céu.
Coloque lado a lado os dois:
O céu cabe no pensamento,
E ainda cabe você depois.
Mais do que o mar, o pensamento é profundo.
Azul mais azul pode abarcar.
O pensamento sorve o mar em um segundo,
Como a esponja sorve a gota que entornar.
Tem o peso de Deus o pensamento,
Grama a grama, lá e cá.
Se for diferente - esteja atento -
Como sílaba o som será.


Hora Sem Remédio


Dizem: - Com o tempo passa.
Mas não passa, na verdade.
Sofrimentos enrijecem como tendões, com a idade.
Tempo testa o sofrimento,
Mas não é o seu remédio.
Se passa ao passar do tempo,
Não havia enfermidade.


Hora em que Tudo Parece sem Sentido


Seu eu aparar, antes que quebre, um coração.
Minha vida não foi em vão.
Se a uma dor oferecer um vinho
Se assoprar uma ferida,
Se ajudar um passarinho
Que caiu de volta ao ninho,
Não foi em vão minha vida.


Hora Preciosa


A natureza quase não usa amarelo,
Sempre escolhe outro matiz.
Guarda essa cor para o pôr-do-sol
E desperdiça anis.
Carmim, gasta feito mulher,
Mas sonega o amarelo.
Precioso e raro o quer
Como a palavra - elo.


Hora da Alegria


Alegria é um vento
Que nos levanta do piso
E nos deixa em outra parte,
Um lugar em desaviso.
Não traz de volta, voltamos,
Sóbrios, depois de um tempo.
Novatos para uma tarde
Na terra do encantamento.


Hora da Verdade


Fale a verdade toda, mas fale de viés.
No rodeio está o sucesso.
Para nossa frágil felicidade,
A surpresa da verdade brilha em excesso.
Como o raio que, por bondade,
Alguém explica à criança que se assusta,
Deve brilhar pouco a pouco a verdade,
Ou todos seremos cegos à sua custa.


Hora da Falta


Se não tivesse visto o sol
A sombra eu suportaria.
Mas essa luz fez do meu deserto
Um deserto que antes não conhecia.


Hora do Temor


Silêncio é tudo que tememos.
Na voz há resgate.
Mas silêncio é infinidade.
Não tem face.


Hora da Esperança


Sem saber quando virá o amanhecer
Eu abro todas as portas.
Terá asas como um pássaro,
Ondulará como as encostas?


Hora do Coração na Mão


O Paraíso é tão longe
Quanto o quanto mais perto
Se nesse quarto se aguarda
Felicidade ou deserto.
Forte é o coração
Que suporta
O estalido
De um passo na porta.


Hora da Promessa


Moço de Atenas, seja fiel apenas
A você
E ao mistério.
Outro alento é falso juramento.


Hora de Esquecer


Coração, vamos esquecê-lo!
Você e eu, nesta tarde!
Esqueça o calor que ele deu,
Que esqueço a luminosidade.
Quando acabar, avise, por favor,
Para que eu apague o pensamento!
Rápido! Enquanto você pulsar,
Vou lembrar mais um momento.


Emily Dickinson


Seleção e tradução de Angela Lago
Editora Scipione, 2008