domingo, 21 de novembro de 2010

Poema



Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar
os brinquedos.
Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido
E caminharmos separados pelos caminhos.
Então ele passará por nós,
E terá a figura de um velho trôpego,
Ou mesmo de um cão abandonado,
O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,
E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do
seu sono subitamente.


Augusto Frederico Schmidt
Grace Mehan DeVito

Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.

Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.

Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.

Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.

Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.

Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.

Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.

Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.

Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo...


Cecília Meireles

Herbert Gustav Schmalz


Meu amor, meu Amado, vê... repara:
Poisa os teu lindos olhos de oiro em mim,
- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara
- É só para teu bem que os tenho assim -
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares...

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
- Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares?


Florbela Espanca

Jack Kerouac, On the Road (1957)



I had nothing to offer anybody except my own confusion.
  • The one thing that we yearn for in our living days, that makes us sigh and groan and undergo sweet nauseas of all kinds, is the remembrance of some lost bliss that was probably experienced in the womb and can only be reproduced (though we hate to admit it) in death. 
  • I like too many things and get all confused and hung-up running from one falling star to another till I drop. This is the night, what it does to you. I had nothing to offer anybody except my own confusion. 
 
What's heaven? What's earth? All in the mind.
  • The car was swaying as Dean and I both swayed to the rhythm and the IT of our final excited joy in talking and living to the blank tranced end of all innumerable riotous angelic particulars that had been lurking in our souls all our lives.
  • What difference does it make after all? — anonymity in the world of men is better than fame in heaven, for what's heaven? what's earth? All in the mind.
  • So in America when the sun goes down and I sit on the old broken-down river pier watching the long, long skies over New Jersey and sense all that raw land that rolls in one unbelievable huge bulge over to the West Coast, and all that road going, all the people dreaming in the immensity of it, and in Iowa I know by now the children must be crying in the land where they let the children cry, and tonight the stars'll be out, and don't you know that God is Pooh Bear? the evening star must be drooping and shedding her sparkler dims on the prairie, which is just before the coming of complete night that blesses the earth, darkens all rivers, cups the peaks and folds the final shore in, and nobody, nobody knows what's going to happen to anybody besides the forlorn rags of growing old, I think of Dean Moriarty, I even think of Old Dean Moriarty the father we never found, I think of Dean Moriarty, I think of Dean Moriarty.


The only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes "Awww!"



Jack Kerouac, On the Road (1957)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Judith Rossner, De bar em bar


O Prof. Martin Eagle era alto e muito magro, com cabelo encaracolado preto-grisalho, um jeito suavemente sarcástico e belos olhos tristes, nos quais só reparava quando ele tirava os óculos e passava a mão pelo rosto. Era poeta e editara, por conta própria, um livro de poesia, conforme ela soube mais tarde através de duas colegas de classe, Carol e Rhoda, que também estavam apaixonadas pelo professor.

No primeiro dia de aula, ele leu um poema de Rainer Maria Rilke:

Que será de ti, Deus, quando eu morrer?
Quando eu, teu cântaro, me quebrar?
Quando eu, teu refrigério, secar?
Eu sou o teu traje, tua profissão,
Perdendo-me, perdeu a tua função...

A seguir, perguntou se alguém, na classe, pensava em ser escritor. Tanto Carol quanto Rhoda levantaram as mãos. O Prof. Eagle disse, então, que ninguém deveria pensar em escrever, se não esperasse criar peças perfeitas, como a que acabara de ler. Poucos conseguiam, mas os que não estivessem dispostos a tentar deveriam desistir antes mesmo de começar. Carol e Rhoda assentiram, solenes.
- Tendo deixado isso bem claro - prosseguiu o Prof. Eagle, com seu jeito triste -, devo-lhes dizer que é meu objetivo ensinar àqueles suficientemente inteligentes para saber que não têm talento - fez uma pausa -, mas que chegam para mim dizendo: "Prof. Eagle, sei que não sou nenhum escritor nem nunca serei, mas quero que o senhor me ensine a escrever uma simples frase sem dar vexame" a fazer exatamente isso: escrever frases simples sem medo de dar vexame. Alguma pergunta?

Quase todos os alunos ficaram calados, sentindo-se vagamente colocados em seus lugares, mas sem saber precisamente que lugares eram esses. Carol e Rhoda pareciam aniquiladas.

Deviam escrever, na primeira pessoa, uma breve descrição de uma experiência desagradável. Não deveriam enfeitá-la com bobagens, como essas franjas de papel prateado que se põem nas coxas dos perus. A adjetivação, quando exigida por motivo de clareza, deveria ser simples e direta: bonito, feio, verde, roxo, etc. As portas seriam abertas ou fechadas, não escancaradas. Não haveria luar derramando-se por entre venezianas; derramamentos, só líquidos. Estavam entendidos?

Aproximou-se da janela e olhou para o pátio. O sol derramava-se pela janela escancarada e fulgia na aliança dele.


Judith Rossner, De bar em bar

Hélène Béland 

se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se
- Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

Assim é e assim seja...


Alberto Caeiro

Personagem

Konstantin Razumov 


São os espelhos que me revelam:
Sem eles eu talvez não soubesse de mim.

Personagem incerto:
alguma dimensão, para demarcar-me.

Densidade suficiente para as quedas.
Às vezes, uma perplexa luz.

De nome não se fala, por desnecessário.
De origem não se sabe o que dizer.

Esta unidade insuficiente,
que não consegue ser sozinha.

Sim, conseguiria, se tudo não fossem agressões,
de dentro e de fora.

Que obediência, que disciplina é preciso aceitar?
Que genealogias se impõem?
Flutua-se num rio caudaloso e baço:
toas as gerações já passaram – e que souberam de proveitoso?
De onde provinham? Como se encadearam seus rostos?
Viveram suas obrigações. Que deixaram?
Tudo se perde na origem anônima,
Nessa negra fonte cega.

Que posso eu ter com essas vidas passadas,
se elas nada afinal têm com a minha?
Que somos todos um sangue?
Ah! cada um vive o seu sangue separadamente!


Cecília Meireles

Três haicais de Benedetti

Koukei Kojima


O pior do eco
É dizer as mesmas
Barbaridades

Eco é a repetição de um som. Você grita, e o seu grito se multiplica, mas nada acontece. Eco é a falta de diálogo. É quando nossa voz não atravessa um canyon, não chega a lugar algum: volta. Você pede aumento de salário: volta. Você reclama do governo: volta. Você chama seu amor: volta! Ele não volta. É surdo como o mundo, que não te escuta.

Koukei Kojima

Os blecautes
Permitem que se negocie
Consigo mesmo

A redução do consumo de energia, que forçosamente virou hábito no país, está fazendo com que televisores e computadores passem mais tempo desligados. Sem a interatividade com as telas, resta a interatividade com o espelho. Quem sou eu quando não estou assistindo a futebol? O que penso quando os outros não estão pensando por mim? Por que choro se não estou vendo nenhuma cena triste? O silêncio conquista o horário nobre. Pessoas viram roteiristas de si mesmas, escrevendo monólogos em suas cabeças e criando diálogos com os outros: é o contrário do eco. Recuperam-se assuntos que não costumam ser debatidos em cadeia nacional. Resgata-se a extinta conversa em família.

Koukei Kojima

Somos tristeza
Por isso a alegria
É uma pobreza

Ninguém nos escuta. Perguntas ficam sem resposta. Nossas orações não são atendidas. Há canyons por todos os lados. Eco... eco... eco... E tristes tocamos a vida, porém valentes, e vez que outra descobrindo um prazer inesperado em pequenas coisas, como um papo franco, um ouvido atento, uma mão estendida, gestos que aproximam. Proezas que cabem em poemas mínimos, como os do uruguaio Mário Benedetti, captador sensível da alma humana.


Martha Medeiros

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Maldição

LEON KROLL, Pensive Nude.

Hoje é tarde para os desejos,
e nem me interessa mais nada...
Cheguei muito depois do tempo
em que se pode ouvir dizer: «Oh! minha amada...»

O mar imóvel dos teus olhos
pode estar bem perto, e defronte.
Mas nem navega as horas
nem se cuida mais de horizonte.

Durmo com a noite nos meus braços,
sofrendo pelo mundo inteiro.
O suspiro que em mim resvala
bem pode ser, a cada instante, o derradeiro.

Morrer é uma coisa tão fácil
que todas as manhãs me admiro
de ter o sono conservado
fidelidade ao meu suspiro.

E pergunto: «Quem é que manda
mais do que eu sobre a minha vida?
Neste mar de só desencanto,
que sereia murmura uma canção desconhecida?

E em meus ouvidos indiferentes,
alheios a qualquer vontade,
que rostos vão reconhecendo
os passeios da eternidade?

Perto do meu corpo estendido,
náufrago inerte de sombras e ares,
quem chegará, desmanchando secretos níveis?
Serás tu? - para me levares...»

(Vejo a lágrima que escorre
por cima da minha pena.
Ai! a pergunta é sempre enorme,
e a resposta, tão pequena...)


Cecília Meireles

Noiva

Pat Brennan 

Noiva, acaso és, a real afogada?
És a louca do rio, noiva?
Se não és, por que cantas assim
E te enfeitas de flores?
Se não és, noiva, por que morres?
Por que levam teu corpo branco
Para tão longe – noiva – para tão longe?
Se tu és a que eu copnheci menina
Por que não estás dormindo sobre o meu
peito,
sossegada, noiva


Augusto Frederico Schmidt

Mel & girassóis - 4

4

Conversaram, no oitavo ou nono dia. Nadaram juntos na praia, primeiro. Depois ela sentiu sede, ele pagou outro suco de limão, tomou outra cerveja. Deitados na areia, lado a lado, falaram. Se você quer que eu conte, repito, mas não é nada original, garanto. Ela era qualquer coisa como uma Psicóloga Que Sonhava Escrever Um Livro; ele, qualquer coisa como um Alto Executivo Bancário A Fim De Largar Tudo Para Morar Num Barco Como O Amir Klink. Ela, que quase não fumava, aceitou um cigarro. E disse que gostava de Fellini. Ele concordou: demais. Para a surpresa dela, ele falou em Fasbinder. Ela foi mais além, rebateu com Wim Wenders. Ele então teve um pouco de medo, recuou e contemporaneizou em Bergman. Ela disse ah, mas avançou ainda mais e radicalizou em Philip Glass. Ele disse não vi o show, e a começou a discorrer sobre minimalismo: um a zero para ele. Ela aproveitou para fazer uma extensa, um tanto tensa, digressão sobre qualquer coisa como Identidades Da Estética Minimalista Com O Feeling Da Bossa-Nova. Ele ouviu, espantado: um a zero para ela.

Empatados, encontraram-se em João Gilberto, que ouviam sozinhos em seus pequenos mas bem decorados apartamentos urbanos, quando queriam abrir o gás, jogar-se pela janela ou cortar os pulsos, e não tinham ninguém na madrugada. Encontraram-se tanto que, mais de meio-dia, ela aceitou também uma cerveja. Meio idiotas, mas tão felizes, ficaram cantando O Pato, enquanto todos aqueles Atletas Dispostos A Tudo Por Um Corpo Mais Perfeito, Gays Fugindo Da Paranóia Urbana Da Aids, Senhoras Idosas Porém Com Tudo Em Cima, e por aí vai, retiravam-se em busca do almoço. O sol queimava queimava. Então ele viu um barquinho a deslizar, no macio azul do mar, mostrou para ela, que viu também, e apontaram, e riram, e o sol não parecia tão ardente ― era o oitavo ou nono dia de bronzeado. Aquele, quando o moreno já dominou a pele você pode, sem susto, tirar os raibans, como ela tirou, para encarar a ele ou a qualquer um outro, direto nos olhos. Que sorriam. Tudo era tão tropical, estavam de férias, morreram de rir, falaram a gente se vê, sem pressa, ao se despedirem na porta dos bangalôs, o dela era o número 19, ele marcou na cabeça. E foram cada um tomar seu banho de água doce.
Descobriram à noite, dançando Love is a Many Splendored Thing. No começo, afastados, depois cada vez mais próximos, à medida em que o maestro do conjuntinho enveredava por ciladas como Beatles, Caetano ou Roberto Carlos. Cantaram juntos Eleanor Rigby, tinham os dois mais de trinta, e ela de repente ficou toda arrepiada com vou-cavalgar-toda-a-noite, encostou a cabeça no ombro dele. Ele apertou mais forte na cintura dela. E foram assim, rodando meio tontos, às vezes sentando para falar de Pessoa, Maísa ou Clarice. Aos poucos descobrindo, localizando, sitiando.

Ele tentava esquecer uma mulher chamada Rita. Conforme o uísque diminuía na garrafa, Rita misturava-se aos poucos com outra chamada Helena, ele repetia como-amei-aquela-mulher-nunca-mais-nunca-mais, enquanto ela sentia algum ódio, mas não dizia nada, toda madura repetindo isso-passa-questão-de-tempo-tudo-bem. Para espanto dele, ela falou o nome daquele homem de antes, de outros também, Alexandre, Lauro, Marcos Ricardo ― ah, os Ricardos: nenhum presta ― e ele também sentiu certo ódio, nada de grave, normal, tempos modernos, mero confronto de descornos. Falaram então sobre as paixões, os enganos, as carências e todas essas coisas que acontecem no coração da gente e tudo, e nada. Dançaram de novo. Ele achava tão bom debruçar o rosto naquela curva do pescoço dela. Ela achava um pouco forte estar-se exibindo assim com um homem afinal desconhecido debruçado desse jeito no pescoço dela, mas encostava mais e mais a bacia na bacia dele ― a pelve, a pelve, repetia, mentalmente ensaiando passos de dança e-um-e-dois-e-três ―, um homem tão abandonado e limpinho cheirando não sabia ainda se a Paco Rabanne ou Eau Sauvage, seria Phebo? Cheiro de homem direito decente e porra caralho: afinal, estavam de férias. E livres, mas esse maldito vírus impõe prudência. Ela deixou que a mão dele descesse até abaixo da cintura dela. E numa batida mais forte da percussão, num rodopio, girando juntos, ela pediu:
Deixa eu cuidar de você.
Ele disse:
Deixo.


Caio Fernando Abreu