quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Fabiano Millani 


Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer

era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.


Maria do Rosário Pedreira
Felice-Pedretti

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)


Sylvia Plath
(Trad. de Maria Luíza Nogueira)

Primavera


Todo o amor que nos
prendera
como se fora de cera
se quebrava e desfazia
ai funesta primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
viver comigo meu pranto
viver, viver e sem ti
vivendo sem no entanto
eu me esquecer desse encanto
que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
é somente o que nos dão
o que nos dão a comer
que importa que o coração
diga que sim ou que não
se continua a viver

Todo o amor que nos
prendera
se quebrara e desfizera
em pavor se convertia
ninguém fale em primavera
quem me dera, quem nos dera
ter morrido nesse dia.


David Mourão Ferreira

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010



E por que haverias de querer minha alma 
Na tua cama? 
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas 
Obscenas, porque era assim que gostávamos. 
Mas não menti gozo prazer lascívia 
Nem omiti que a alma está além, buscando 
Aquele Outro. E te repito: por que haverias 
De querer minha alma na tua cama? 
Jubila-te da memória de coitos e acertos. 
Ou tenta-me de novo. Obriga-me. 

Hilda Hilst

Quantas vezes eu assassinei o amor?


 O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.


Fabrício Carpinejar

Fragmentos para dominar o silêncio

I
Las fuerzas del lenguaje son las damas solitarias, desoladas, que cantan a través de mi voz que escucho a lo lejos. Y lejos, en la negra arena, yace una niña densa de música ancestral. ¿Dónde la verdadera muerte? He querido iluminarme a la luz de mi falta de luz. Los ramos se mueren en la memoria. La yacente anida en mí con su máscara de loba. La que no pudo más e imploró llamas y ardimos.

As forças da linguagem são damas solitárias, desoladas, que cantam através da minha voz que escuto a distância. E distante, na arena negra, jaz uma menina densa de música ancestral. Onde está a verdadeira morte? Quis me iluminar à luz de minha falta de luz. Os ramos morrem na memória. A que jaz aninhada em mim com sua máscara de loba. A que não pôde mais e implorou chamas e ardemos.

II
Cuando a la casa del lenguaje se le vuela el tejado y las palabras no guarecen, yo hablo.
Las damas de rojo se extraviaron dentro de sus máscaras aunque regresarán para sollozar entre flores.
No es muda la muerte. Escucho el canto de los enlutados sellar las hendiduras del silencio. Escucho tu dulcísimo llanto florecer mi silencio gris.

Quando voa o telhado da casa da linguagem e as palavras não protegem, eu falo.
As damas de rubro se perderam dentro de suas máscaras ainda que regressassem para soluçar entre flores.
Não é muda a morte. Escuto o canto dos enlutados selar a rachaduras do silêncio. Escuto seu dulcíssimo pranto florescer meu silêncio gris.

III
La muerte ha restituido al silencio su prestigio hechizante. Y yo no diré mi poema y yo he de decirlo. Aún si el poema (aquí, ahora) no tiene sentido, no tiene destino.

A morte restituiu ao silêncio seu prestígio encantador. E eu não direi meu poema e eu tenho que dizê-lo. Mesmo que o poema (aqui, agora) não tenha sentido, não tenha destino.


Alejandra Pizarnik
(de La extracción de la piedra de la locura, 1968)

A Virtude


A virtude é a mãe do vício
conforme se sabe;
acabe logo comigo
ou se acabe.

A virtude e o próprio vício
- conforme se sabe -
estão no fim, no início
da chave.

Chuvas da virtude, o vício,
conforme se sabe;
é nela própriamente que eu me ligo,
nem disco nem filme:
nada, amizade. Chuvas de virtude:
chaves.

(amar-te/ a morte/ morrer:
há urubús no telhado e carne seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa: só escapo
pela porta de saída).

A virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?

A virtude
mais o vício: início da
MINHA
transa, início, fácil, termino:
"como dois mais dois são cinco"
como Deus é precipício,
durma,
e nem com Deus no hospício
(durma) nem o hospício
é refúgio. Fuja.



Torquato Neto
em "Os Últimos Dias de Paupéria"

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Presépio


Observem que o presépio tem vaca, cabrito, cordeirinho, todos observando o Menino Jesus.
Os Reis Magos celebraram a chegada daquele Bebezinho iluminado com ouro, incenso e mirra.
Em nenhum momento, os magos, José ou Maria sugeriram assar um peru ou um pernil para comemorar.
Os primeiros adoradores de Jesus foram justamente os animais, e  foram eles que o aqueceu naquela noite.

O amoroso

Gianni Strinno

é uma flor
acesa
no limiar na boca

da folhagem
assoma
a chama da raiz


dói a madrugada?

mordo
o lábio inferior
por dentro da ferida
anjo afogado
nas próprias asas


nua atravessa o quarto
e a noite presta-se

entre as mãos
o rosto perde
a cor

os lábios
afastam-se
da chama

desesperadamente

devagar
desprende-se a folha
do desejo

acende-se a vela
no campo

o Outono
perde
a voz

desce a língua
do silêncio
ao colo



a voz(a voz?)
acarìcia os seios
da enamorada



José Viale Moutinho

Todas as vidas












– Criação de André Sétu
(Comunidade Cora Coralina)