quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011



Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.



Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Diga-me: Por que temos que comer os animais?


Why must we eat the Animals? (OhWhyOhWhhy.org)

The Yogis they teach us Ahimsa
Os yogues nos ensinam Ahimsa
Non-violence, to be happy and free,
A não-violência, para ser feliz e livre,
For all the beings of this world
Para todos os seres deste mundo
The animals the plants and humanity.
Os animais, as plantas e a humanidade.
Sweet fruit in abundance and vegetation
Doces frutas em abundância e a vegetação
The gifts of our Mother Earth
Os presentes da nossa Mãe Terra
The Garden of Eden is ours for cultivation
O Jardim do Éden é nosso para o cultivo
Our human right from birth!
Nosso direito humano desde o nascimento!
So tell me whymust we eat the Animals?
Então me diga por que temos que comer os animais?
Oh Why? Oh Why?
Oh por quê? Oh por quê?
The shrimp decorate their underwater caves
O camarão decora suas cavernas subaquáticas
And the mighty buffalo roam
E o poderoso búfalo vagueia
The cows want to love their babies young
As vacas querem amar seus filhotes
The birds nest in trees for home
O ninho dos pássaros nas árvores para o repouso
The clown fish you see them mate in pairs
Os peixes palhaços, você os vê em pares
And the dolphin – they speak like me
E os golfinhos falam como eu
The whales have global communication
As baleias têm uma comunicação global
Intelligence is all I see!
inteligencia é tudo que eu vejo!
So tell me why must we eat the Animals?
Oh me diga porque devemos comer os animais?
Oh Why? Oh Why?
Oh por quê? Oh por quê?
Endless slaughter, dark, and painful lives
Chacina infinita, obscuridade, e vidas dolorosas
…most the animals know
a maioria dos animais sabe
We are the shepherds of this Earth
Somos os pastores da Terra
It’s up to us to nurture and grow
Cabe a nós cuidar e fazer crescer
So why have we forgotten our heritage?
Então, por que não devemos esquecer o nosso património?
Why is Babylon blind to see?
Por que a Babilônia é cego para ver?
That we’re all the children of this world
Que somos todos filhos deste mundo
And animals are in our family
E os animais estão em nossa família
So tell me why must we eat the Animals?
Oh me diga porque devemos comer os animais?
Oh Why? Oh Why?
Oh por quê? Oh por quê?
Aristotle and Buddha and Einstein
Aristóteles, Buda e Einstein
Abraham Lincoln and Mahatma Gandhi,
Abraham Lincoln e Mahatma Gandhi,
The Rastas the Jains and the Hindus
Os Rastas, os jainistas e os hindus
They say that vegetarian is healthy
Eles dizem que vegetarianismo é saudável
It’s the solution for Global Warming
É a solução para o aquecimento global
And the planet’s prosperity
E a prosperidade do planeta
So tell me why must we eat the Animals?
Então me diga por que temos que comer os animais?
There is no reason that I can see….
Não há razão para que eu possa ver ….
Oh tell me why must we eat the Animals?
Oh me diga porque devemos comer os animais?
Oh Why? Oh Why?
Oh por quê? Oh por quê?

A quatro mãos


Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério.

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.



Lya Luft

Elogio da Loucura



* "Duas coisas, sobretudo, impedem que o homem saiba ao certo o que deve fazer: uma é a vergonha, que cega a inteligência e arrefece a coragem; a outra é o medo, que, indicando o perigo, obriga a preferir a inércia a ação."

* "O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções."

* "Não haveria, pois, diferença alguma entre os sábios e os loucos, se não fossem mais felizes estes últimos. Sim, porque estes o são por dois motivos: o primeiro é que a felicidade dos loucos não custa nada, bastando um pouquinho de persuasão para formá-la; o segundo é que os meus loucos são mais felizes mesmo quando estão juntos com muitos outros. Ora, é impossível gozar um bem quando se está sozinho."

* "E foi por essa razão que o grande Arquiteto do Universo proibiu que o primeiro e lindo par de esposos, por ele feitos e unidos em matrimônio, provassem o fruto da árvore da ciência do bem e do mal , sob pena de sua desgraça e morte. É a melhor prova de que a ciência é o veneno da felicidade."


Erasmo de Rotterdã

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles
Fotografia de Paulo Madeira

- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY

No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!

O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!
Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!
Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.

Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!

Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve..
Treme... como tremia.

Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!

Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!

Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!


Álvares de Azevedo

Aprendizagem da poesia



Durou muitos anos, aquele verão.
Crescíamos sem pressa com o trigo
e as abelhas. Com o sol
corríamos para a água, à noite
num verso de Shakespeare ou
na nossa boca uma estrela dançava.
Aprendíamos a amar, aprendíamos
a morrer. A todos os sentidos
pedíamos para escutar o rumor,
não do mundo, que ninguém abarca,
apenas da brancura de uma folha
e outra folha ainda de papel.


Eugénio de Andrade

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O Turista



The Secret Rose



Far-off, most secret, and inviolate Rose,
Enfold me in my hour of hours; where those
Who sought thee in the Holy Sepulchre,
Or in the wine-vat, dwell beyond the stir
And tumult of defeated dreams; and deep
Among pale eyelids, heavy with the sleep
Men have named beauty. Thy great leaves enfold
The ancient beards, the helms of ruby and gold
Of the crowned Magi; and the king whose eyes
Saw the Pierced Hands and Rood of elder rise
In Druid vapour and make the torches dim;
Till vain frenzy woke and he died; and him
Who met Fand walking among flaming dew
By a grey shore where the wind never blew,
And lost the world and Emer for a kiss;
And him who drove the gods out of their liss,
And till a hundred morns had flowered red
Feasted, and wept the barrows of his dead;
And the proud dreaming king who flung the crown
And sorrow away, and calling bard and clown
Dwelt among wine-stained wanderers in deep woods;
And him who sold tillage, and house, and goods,
And sought through lands and islands numberless years,
Until he found, with laughter and with tears,
A woman of so shining loveliness
That men threshed corn at midnight by a tress,
A little stolen tress. I, too, await
The hour of thy great wind of love and hate.
When shall the stars be blown about the sky,
Like the sparks blown out of a smithy, and die?
Surely thine hour has come, thy great wind blows,
Far-off, most secret, and inviolate Rose?


William Butler Yeats

Ismália

by Mel Gama

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na tôrre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Alphonsus de Guimaraens

Pergunta-me


Pergunta-me

pode um pássaro atravessar as lentas planícies
do amor?

com outras asas inacabar um crepúsculo
é trabalho de todos os homens?

é na nudez ou na ondulação das árvores que habitam
as coisas possíveis deste mundo?

porque esfumas na contraluz a substância
efémera dos teus poemas?

em que Língua um dia me deixarás de responder?

Pergunta-me.


Sandra Costa